Lived in bars
setembro 16, 2008
Estava lá eu sentado em uma das mesas de um bar meio escuro, tom da minha pele, tomando café e comendo algumas bolachas. Eu era um homem nobre num bar de pobre. Lia meu livro tão compassante e nem percebia o movimento ao redor. Num determinado momento, senti um perfume, não um perfume qualquer, mas o perfume mais doce que já senti. Olhei. Ali estava ela, parecia que passara a fora, rodando as ruas da nossa grande cidade. Foi até o bar, pediu um café grande forte e uma carteira de cigarros. Parecia não se importar com os olhares para ela voltados. Levava consigo uma bolsa, deveria haver alguns pertences e alguma identificação daquela mulher. Tomou o café de um gole só, acendeu um dos cigarros e ficou lá, olhando em volta. Eu a olhei. Ela me olhou. Chamei-a para sentar, ela consentiu e veio caminhando na minha direção. Ao chegar, percebeu toda a minha nobreza e perguntou o que eu tanto queria com ela. Era óbvio, mas ela gostava de se sentir desejada. Partimos dali no meu carro, sem música, sem ar-condicionado, só a minha preocupação e a satisfação dela. Fizemos o que tinhamos que fazer e a deixei lá, no ponto de ônibus. E olhe que eram apenas dez horas da manhã!
Um começo
setembro 13, 2008
Algumas vezes baldes de água fria num corpo que acabou de acordar é bom. Tão bom que muda a visão molhada de um ser que antes vivia cego. Ele vê que nada mais é um monstro, nada mais é tão grande quanto quando ele não via. Ele abriu os olhos pela primeira vez dessa vez. Os olhos tão abertos que ele via muito bem os olhos de outros seres. Ele hoje não se preocupa tanto, sabe que tudo cabe dentro de sua mão e não vaza, que todos os sentimentos podem ser evitados ou aflorados de acordo com a sua própria sentinela. Ele hoje vê também que nem tudo que parece doer tanto, doi. São apenas meros medos que o seguia. Existem outras formas de viver, outras formas de sentir, outras formas de doer. E se você não sofre, os sorrisos vêm… mas se você não sabe só sentir dor, nao sabe conviver com a dor sem o sofrimento.. bem, aprenda. Ele aprendeu… de um modo meio que doloroso, mas aprendeu.Teve que ser cego para ver o mundo melhor. E sabe, sente-se muito bem só com a dor inevitável. Tem um mundo todo lá fora, por que ficar desperdiçando lágrimas com algo tão superfluo?
De dentro do furgão
setembro 12, 2008
Ainda está escuro, mas já não é mais noite. O vento frio que entra pela janela me causa calafrios, mas estou coberta, mesmo que com um mero lenol fino. O cheiro que vem com o vento é de desmatamento. E o nome desse desmatamento é cana-de-açúcar. Milhares daqueles pés, aqueles galhos feios, sem vida quando são arrancados. Não tem coisa que mais odeio do que esses malditos pés de cana.
Enquanto o carro anda, no meu ouvido o som do motor, na janela se vê casas populares no meio do nada, carros velhos amontoados e muitos caminhões fumacentos. Eu não queria morar aqui, em nenhum canto desses, perto da cana-de-çúcar. Um mar de árvores com caules finissimos, todas em fileira, organizadas; tudo que uma floresta não precisa ser.
A fiação de rede eletrica passa por todas as partes. As casas, os postos e a iluminação pública necessitam dos fios, mesmo fazendo feia a paisagem do céu. Preferem até a iluminação artificial do que a iluminação natural do sol.
A evolução é uma coisa que me assusta, a cada minuto uma coisa nova, um novo mundo, um novo acontecimento e uma nova destruição.